Imagine-se um cenário onde um tenista amador derrota um tetracampeão do Grand Slam, ou onde homens competem contra mulheres num court convencional, com estrelas do circuito a enfrentarem apresentadores de televisão e comediantes. Não se trata de um delírio febril provocado pelo calor de Melbourne, mas sim da realidade vivida na noite de quarta-feira, onde um único ponto decidiu o vencedor de um prémio de um milhão de dólares australianos. Este evento, a segunda edição do “One Point Slam” do Open da Austrália, serviu como um lembrete revigorante da capacidade do desporto para gerar caos e entretenimento puro, algo que muitas vezes se perde na rigidez da competição oficial.
Jordan Smith, um jogador amador da academia de ténis de Castle Hill, em Sydney, foi o improvável herói da noite ao vencer a segunda edição do torneio. Numa final eletrizante perante um estádio lotado e uma audiência online cativa, Smith superou Joanna Garland, a número 117 do ranking mundial feminino, que anteriormente havia eliminado nada menos que Alexander Zverev, o número 3 do mundo masculino.
Estrelas globais rendidas ao formato imprevisível
Se no ano passado o evento contou apenas com Andrey Rublev como representante da elite e um prémio modesto, este ano as estrelas marcaram presença em força. Nomes como Carlos Alcaraz, Jannik Sinner, Iga Świątek e Coco Gauff juntaram-se a um grupo de 48 participantes que incluía campeões estaduais amadores de toda a Austrália. A dinâmica era simples e impiedosa: cada confronto começava com um jogo de “pedra, papel ou tesoura” para decidir quem servia, tendo os profissionais direito a apenas um serviço.
A natureza aleatória do formato fez vítimas ilustres logo no primeiro obstáculo. Jannik Sinner, número 2 do mundo, e Coco Gauff foram eliminados precocemente, falhando na tarefa mais básica de colocar o serviço no quadrado. Sinner caiu precisamente perante Jordan Smith, o eventual vencedor. Por outro lado, Petar Jovic, um dos amadores, quase surpreendeu Daniil Medvedev com um tweener (batida por entre as pernas). O ambiente era de descontração total, com os jogadores a rirem e a expressarem descrença mútua, abraçando o caos de jogar um único ponto — uma situação que, nas suas vidas profissionais, acarreta habitualmente um peso imenso. Até Taylor Fritz, número 9 do mundo, expressou na rede social X o seu arrependimento por ter decidido não participar.
A consagração de um amador e o prémio de sonho
Joanna Garland, de 25 anos, que representa Taipé Chinesa mas nasceu no Reino Unido, foi uma das grandes figuras da noite. Além de eliminar Zverev, deixou pelo caminho Nick Kyrgios e Donna Vekić. A sua surpresa genuína a cada vitória encantou o público, especialmente considerando que ela apenas se qualificara para o evento naquele dia, após perder na fase de qualificação regular do Open da Austrália. No entanto, na final, Garland falhou uma direita cruzada após o serviço, entregando o título a Jordan Smith. O amador, incrédulo, viu-se subitamente dono do prémio monetário que repousava numa caixa de vidro ao lado do court. Smith revelou planos para investir o dinheiro ou adquirir uma propriedade com a namorada, enquanto o seu clube de ténis recebeu um bónus de 50.000 dólares australianos.
Sorteio oficial dita rota de colisão entre Djokovic e Sinner
Enquanto a poeira do evento de exibição assentava, as atenções viraram-se para o sorteio oficial do quadro principal, revelado na quinta-feira, que trouxe notícias de peso para a estrutura do torneio. Novak Djokovic e Jannik Sinner ficaram colocados na mesma metade do quadro, o que projeta uma meia-final bombástica entre o recordista de 10 títulos em Melbourne e o bicampeão em título. Sinner, que lidera o confronto direto recente contra Djokovic por 6-4 — numa rivalidade onde o sérvio chegou a liderar por 4-1 —, derrotou o veterano nas meias-finais de 2024, rumo à sua primeira coroa num Major.
Djokovic, agora com 38 anos, inicia a sua campanha contra Pedro Martinez, com o objetivo claro de conquistar o seu 25.º título do Grand Slam, feito que o isolaria de Margaret Court como o tenista com mais títulos de singulares na história. Já Sinner, segundo cabeça de série e à procura de um terceiro título consecutivo em Melbourne Park, estreia-se contra o esquerdino francês Hugo Gaston. Antes do sorteio, o italiano abordou as perspetivas para o torneio com cautela, afirmando que “o quadro é muito difícil, não importa contra quem se joga”, reiterando a filosofia de avançar dia após dia.
O caminho de Alcaraz e os duelos iniciais
Na outra metade do quadro encontra-se Carlos Alcaraz, número 1 do ranking PIF ATP. O espanhol procura o seu sétimo título do Grand Slam e completar o “Career Grand Slam” (vencer os quatro maiores torneios). Alcaraz partilha esta secção do quadro com o rival Alexander Zverev e iniciará o seu percurso contra a esperança local, Adam Walton.
Entre os embates mais aguardados da primeira ronda destaca-se o confronto entre Alex de Minaur, sexto cabeça de série, e o antigo top 10 Matteo Berrettini. Os dois dividiram vitórias nos encontros em piso duro em 2025, com o italiano a deter uma ligeira vantagem no histórico geral. Outro jogo a seguir com atenção será o de Zverev contra o possante servidor Gabriel Diallo, num duelo inédito.
Sinner aproveitou ainda a ocasião para elogiar a sua parceria com o treinador australiano Darren Cahill. “Tivemos uma boa conversa no final do ano e é ótimo partilhar pelo menos mais uma temporada com ele”, referiu o italiano, destacando a calma e segurança que Cahill transmite a toda a equipa, algo particularmente especial quando competem em solo australiano.